LARVAS chegam ao Rio de Janeiro

Em cartaz no Teatro Poeira, espaço cultural de Marieta Severo e Andrea Beltrão que tem proporcionado aos cariocas a oportunidade de assistir a espetáculos não convencionais e que dificilmente chegariam à cidade por falta de apelo comercial, "Larvárias" é o mais recente trabalho da Cia. do Giro, inspirado na estética das máscaras do Carnaval de Basel (Suíça), introduzidas no universo teatral na década de 60 pelo francês Jacques Lecoq. Daniela Carmona assina o roteiro e a direção, dividindo a cena com Adriano Basegio.

A começar por Marieta Severo e Andréa Beltrão, o público que esteve na estréia se emocionou com o espetáculo. “É original e usa as máscaras de uma maneira bonita”, afirmou Marieta. As duas também querem trazer grupos de outros estados para se apresentarem no Poeira. “Estamos buscando peças de qualidade, que levem a caminhos ousados. (...) Queremos continuar a trazer para o Poeira espetáculos diferentes, que o público não está acostumado a ver nos palcos cariocas e dar, cada vez mais, oportunidades a novos grupos."

“Gosto muito de trabalhos que usam a expressão corporal, sem texto, porque a linguagem do espetáculo torna-se universal. É uma montagem que pode ser assistida em qualquer lugar do mundo”, disse Bruno Garcia, que também esteve presente na estréia.

Após temporada de sucesso em Porto Alegre e apresentações na Venezuela e Espanha, o espetáculo do grupo gaúcho Cia do Giro faz curta temporada no Rio de Janeiro antes de embarcar para festivais na Lituânia, Marrocos e Equador.


Andréa Beltrão, Adriano Basegio, Marieta Severo e Daniela Carmona / Foto: Juliana Rezende (Cia. da Foto)

BARBARA HELIODORA - crítica de teatro do jornal O Globo - 18 de março de 2007
Companhia do Giro ocupa o Teatro Poeira com um trabalho de excepcional sutileza

O grupo gaúcho Companhia do Giro está apresentando, no Teatro Poeira, o espetáculo “Larvárias”, um roteiro de Daniela Carmona, que é também a diretora do espetáculo. O grupo se dedica há dez anos à formação de atores e a pesquisas, e o resultado de um de seus projetos é esta instigante encenação de pequenas ações elaboradas a partir do uso das máscaras típicas do carnaval da cidade de Basel, na Suíça. Atos sem palavras vividos em um espaço branco onde há uma imensa bola branca, “Larvárias” nos defronta com uma série de seres a caminho da forma humana, que transmitem com economia e elegância de gestos e movimentos um interessante e atraente quadro de descobertas, tanto de si quanto do outro e do espaço em que repentinamente se encontram essas larvas a caminho da humanidade.

A preparação corporal serve muito bem à direção. A música de Fabio Mentz é parte orgânica do todo, pois reagir a ela, pulsar com ela, mover-se com ela, expressar sentimentos com ela são parte da inquietação do novo, da curiosidade a respeito do desconhecido, da surpresa de descobertas sensoriais e emocionais.

Austeramente encenadas, as pequenas ações são amparadas pelo cenário de Élcio Rossini, um piso todo branco cercado por cortinas pretas sobre a quais pendem, como uma persiana vertical, tiras brancas com marcas horizontais que fazem o todo lembrar bambu. O único e imenso balão branco que ocupa de início o centro do palco é mais um terceiro ator do que um elemento cenográfico. Os figurinos de tecidos de trama pesada, de Rô Cortinhas, são principalmente branco e preto, com uma exceção em vermelho, concebidos para servir de base para as várias máscaras de Denise Castilho. A beleza da luz de Fernando Ochoa também participa da idéia de descoberta, de nascimento, de pulsar de vida, que domina o espetáculo.

A preparação corporal de Dagmar Dornelles serve muito bem à direção de Daniela Carmona, pois uma e outra têm a mesma economia, o mesmo foco, que conduzem com firmeza o casal de atores a um trabalho de precisão e detalhamento sem o que nada do que é buscado seria possível.

O trabalho de interpretação de Daniela Carmona e Adriano Basegio é comovente. Pequenos movimentos são o suficiente para dar vida àquelas estranhas máscaras larvárias a ponto de alcançar a humanidade que inevitavelmente destruirá a economia de gesto animal que ainda têm. É um trabalho de excepcional sutileza, uma pesquisa brilhante na área da comunicação alternativa, que valoriza o quieto e o vazio que desapareceram na nossa cultura atual.

Em busca da plena humanidade

Segundo mestre Aurélio, o substantivo feminino larva vem do latim larva e, embora designe o primeiro estágio dos insetos depois de saírem do ovo, para os antigos romanos a palavra nomeava o "espírito malfazejo de um morto que vagueava entre os vivos para os aterrorizar".

No caso do presente espetáculo, espíritos malfazejos não assombram a cena, tampouco insetos atormentam os espectadores. O que existe são seres que, de uma maneira geral, contêm tanto aspectos humanos como animais, com predominâncias alternadas.

Em uma época em que a cena carioca é dominada pela palavra, é realmente instigante se assistir a algo que a dispensa, sem que isto signifique que o espetáculo não possua um "texto". E "Larvárias" possui não apenas um, mas vários textos, pois exibe diversificados, curiosos, engraçados e comoventes momentos - na realidade, múltiplos caminhos, plenos de descobertas. E estas abrangem, entre outras, a descoberta do espaço, do outro e de possíveis afetos, como a sugerir que a plena humanidade só possa ser atingida após serem ultrapassados inevitáveis estágios "larvários".

Com relação à montagem, esta brinda o espectador com momentos de extrema beleza, repletos de encantamento, humor e poesia. As expressivas máscaras sugerem, basicamente, um permanente estado de inquietação com relação às sucessivas descobertas, e tornam-se ainda mais expressivas graças ao maravilhoso trabalho corporal dos intérpretes, em total sintonia com as emoções em causa.

Torna-se imperioso, também, destacar a sempre renovada relação que os personagens estabelecem com uma enorme bola branca, que nos parece simbolizar o mundo, um mundo capaz de ser permanentemente alterado, desde que se tenha a vontade de fazê-lo. Ao invés de nos propor a aceitação da realidade como ela se apresenta, o espetáculo sugere que somos livres para segurar com firmeza o timão de nossa vida e dar a ela o rumo que desejamos.

Lionel Fischer
TRIBUNA DA IMPRENSA - RJ - 20 DE MARÇO DE 2007


Poesia e sofisticação em Larvárias

A companhia gaúcha Cia do Giro apresenta a partir desta quinta-feira, no Teatro Poeira, o espetáculo Larvárias, inspirado na estética das máscaras do carnaval de Basel, na Suíça. Os atores/diretores Adriano Basegio e Daniela Carmona mesclaram poesia, sensibilidade e uma técnica muito sofisticada para montar a peça, que aporta no Rio após uma temporada de sucesso em Porto Alegre e apresentações na Venezuela e Espanha.

Os atores emergem de um universo iluminado travestidos de máscaras-larvas para contar a história dos encontros e desencontros destes seres míticos, que estão na fronteira entre o homem e o bicho. O trabalho é de tal modo surpreendente que o espectador tem a impressão que as máscaras exibem movimentos fisionômicos. De acordo com Daniela, é a primeira vez que se apresenta no Brasil um espetáculo utilizando integralmente este tipo de máscara.

"As Larvárias foram introduzidas no universo teatral na década de 60 pelo francês Jacques Lecoq. Em 1996 fui fazer um curso de especialização na École International Philliphe Gaulier, em Londres, e estudei vários tipos de máscaras, entre elas as larvárias, pelas quais fiquei encantada, já que elas nos remetem a um espaço poético e delicado. É difícil falar de sangue usando essas máscaras".

As máscaras são fixas e geralmente maiores que o rosto do ator, com pequenos orifícios no lugar dos olhos. O campo visual fica reduzido e é preciso aguçar os outros sentidos para atuar. Recursos como luz, música, cenário e figurino completam o desafio que se desenrola em cena, onde os personagens interpretam os ciclos da vida de uma forma muito particular.

"Os elementos cênicos são fundamentais para enfatizar a poesia que queremos transmitir. No entanto, usar luz, música e etc foi uma opção nossa. A técnica é relativamente jovem, tem cerca de 45 anos, este tempo é muito curto para legitimar uma estética. Aos poucos as leis para o trabalho vão sendo construídas", explica Daniela.

Adriano conta que Daniela comprou as máscaras na Suíça por preços que variaram de 300 a 400 dólares. A dupla tentou criar os artefatos no Brasil, mas foi impossível, uma vez que não temos o tipo de material necessário. "É uma espécie de papelão muito resistente, pronto para ser usado depois de lixado e pintado", revela.

Os atores funcionam quase como manipuladores das máscaras, por isso a companhia já foi convidada a apresentar o espetáculo em festivais de formas animadas. Para Adriano, o desafio é justamente recuar e deixar espaço para a máscara.

"A Larvária se impõe, tenho sempre que lembrar que não sou eu, e sim a máscara que deve ser o destaque. Sou apenas o veículo para a poesia da Larvária. É mais um trabalho de observador atento do que de ator", completa.

Alessandra de Paula
ALMANAQUE VIRTUAL - RJ - 23 DE MARÇO 20007


Criaturinhas adoráveis
A Cia. do Giro de Porto Alegre desfila figuras encantadoras num espetáculo potencialmente rico

E lá fui eu numa tarde de domingo conhecer o teatro Poeira. O espaço é verdadeiramente o que poderíamos chamar “uma graça”. Bonito, agradável, confortável. Mesas ao ar livre que nem mesmo a garoa de fim de tarde nos faz querer levantar. Desde que o Gláucio Gill foi “deformado”, ganhando aquele palco altíssimo e abrindo mão definitivamente da acústica, a cidade andava precisando de mais espaços com platéias reversíveis. Aquelas arquibancadas móveis que não obrigam os encenadores mais interessantes a procurar pátios de padarias e átrios de sinagogas para fazer suas experiências com espaço. Nesse ambiente agradável e de bom gosto sentamo-nos para assistir ao espetáculo gaúcho Larvárias.

O termo larvária, que pode espantar os não-iniciados, eu já conhecia das palestras do grupo Moitará: refere-se a um tipo de máscara que mostra uma espécie de embrião de personagem; algo anterior ao que denominamos tipo, pois não apresenta uma ação integrada a uma estrutura cultural ou social. Seu jogo encontra-se baseado em uma relação de descoberta com o mundo que o circunda, e mesmo a sua estrutura de comunicação baseia-se em uma gestual cuja necessidade de entendimento é anterior à linguagem. Fico sabendo pelo programa do espetáculo que a larvária tem sua origem em máscaras usadas no carnaval de Basel, na Suíça, e que foi um dos mestres da mímica moderna, Jacques Lecoq, o responsável por aproveita-las para representações pela primeira vez, nos idos dos anos 60.

O espetáculo em questão é o resultado de uma pesquisa muito interessante realizada pela cia. do giro, que trata da busca de formas de expressão que não obedeçam a códigos usuais e culturalmente cifrados de comunicação. O projeto, chamado comunicações possíveis já levou a apresentação a grupos os mais variados, como crianças, idosos, operários, doentes mentais, verificando nessas apresentações a eficácia e os resultados do tipo de conversa que o espetáculo estabelece com os seus públicos.

O cenário serve para introduzir muito bem o que se assiste. O minimalismo de um branco que domina a cena, com uma espécie de rotunda formada por tiras de tecido esticável, onde há diversos vãos para entradas e saídas são convenientemente completados por uma esfera inflável igualmente branca. O quadro desarma o espírito do público, que pode assim se preparar para presenciar uma experiência que escapa aos ditames do convencional. O cenógrafo Élcio Rossini sucede em preparar um espaço que convém ao jogo, tanto do elenco como do público.

Em cena, os atores Adriano Basegio e Daniela Carmona (que também assina roteiro e direção) se revezam em atos curtos que apresentam máscaras diferentes, em situações de uma simplicidade poética, quase animal. O jogo dos personagens-máscaras entre si, e integrados ao cenário (a esfera inflável é utilizada de diversas maneiras, todas plasticamente interessantes, e quase sempre de modo lúdico e divertido) consegue cativar o público sempre que o foco das máscaras – o correto direcionamento do olhar – e o tempo das reações são corretamente executados. E essa é uma das grandes dificuldade em trabalhar com máscaras – e o senão do belo espetáculo. Ainda que bem preparados corporalmente, e visivelmente treinados no uso da máscara larvária – haja visto os desafios que os atores se dão em cena, e dos quais costumam se desincumbir bem – quando o foco se perde e as reações atrasam, o jogo vital fica um tanto vago, e recuperar o interesse do público passa a ser um esforço.

Quando os atores sintonizam-se o efeito é belo e capaz de prender a atenção de modo inapelável. Saem-se muito bem quando aliam o uso da máscara a torções e reconstruções corporais, como quando prendem a máscara na parte de trás da cabeça, dando corpos tão inusitados quanto funcionais aos seus bichos-larvas que muitas vezes enternecem e divertem o público.

O uso da esfera com objeto animável é muito interessante e divertido. Mais até do que o grande boneco construído por Mario de Balenti (desculpe, Abelardo!). A luz de Fernando Ochôa faz bom uso de gobos e máscaras, integrando-se com o cenário de modo harmonioso. A música de Fernando Peters e Dagmar Dornelles pontua a ação com criatividade mas, por isso mesmo, às vezes põe à mostra os desencontros entre foco e tempo anteriormente mencionados.

Larvárias é com certeza um espetáculo fruto de uma reflexão séria e de um estudo bastante pertinente acerca de integrações entre linguagens tradicionais do teatro com alternativas mais modernas. Como espetáculo teatral peca às vezes por fazer prevalecerem as intenções aos resultados. Mas, ao final, nos faz querer saber mais acerca das máscaras larvárias. Seria bom se pudéssemos ver mais e sempre dessas criaturinhas adoráveis.

Mario Piragibe
ALMANAQUE VIRTUAL - RJ - 23 DE MARÇO DE 2007


Gestos e música que dizem tudo
O encantamento de Larvárias, um espetáculo sem texto

Larvárias, espetáculo do grupo gaúcho Cia. do Giro inspirado na estética das máscaras de Carnaval da Basiléia, na Suíça, desperta, a princípio, estranheza. Os atores não falam. Os rostos, cobertos, têm vedada qualquer expressão. O lento passar do tempo faz-se presente na história dos dois personagens, meio larvas, meio humanos. O público é instado a se adequar ao ritmo imposto pela encenação. A dupla de atores Adriano Basegio e Daniela Carmona (ela assina também roteiro e direção) evolui, precisa, em movimentos estudados, por um cenário branco, inóspito, tomado por uma imensa bola alva. À medida que a peça avança, a estranheza cede lugar ao encanto. A força de Larvárias está na singeleza. Ela aborda instintos e sentimentos primários, como amor, amizade, dominação. A ausência de palavras frisa o peso de cada gesto e da música de Fabio Mentz, que não só colore, mas também desencadeia a ação. Em tramas e tecidos rústicos, num jogo de preto e branco, os figurinos contribuem para a plasticidade do espetáculo. A delicadeza de Larvárias pega a platéia de surpresa e emociona pelo lirismo. E ainda mostra que viver pode ser mais simples do que parece.

REVISTA VEJA - RJ